segunda-feira, 9 de junho de 2008

Sobre a arte da “colegação”

Sim: a palavra entre aspas do título não existe; é um neologismo criado pelas minhas colegas de faculdade. Éramos da área de Arte e Cultura, meio em que fazer contatos é fundamental para um bom desempenho na carreira. Quando nos referíamos, pois, a duas pessoas que não se conheciam, ou se conheciam pouco, e estavam entretidas num papo animadíssimo (geralmente num evento), dizíamos que elas estavam “colegando”. Uma frivolidade típica do nosso ambiente sócio-profissional.

Espero não decepcionar os amigos que sempre param por aqui para ler a coluna, mas o fato é que eu não sou sempre “colegante”. Claro que puxo conversa em fila de banco e de supermercado, mas quando não estou numa “lua interativa”, costumo ser bem séria à primeira vista. Só me desarmo rapidamente quando vejo que converso com alguém que vale a pena papear.

Agora, imaginem a seguinte situação.

Dormi absurdamente mal na madrugada do último domingo, e acordei antes das 6 para partir em direção a mais um concurso. Chovia que era um horror no Rio, um clima chato demais. Calculei mal o tempo e cheguei muito cedo no local de prova, o que resultou numa longa hora em pé, debaixo de uma marquise, esperando os portões abrirem. Neste ínterim, aparece uma criatura do meu lado doida para “colegar” comigo. Ai ai ai. Sono, frio, mau-humor matinal... e alguém me falando que veio de não sei onde fazer prova no Rio, com a maior cara de que estava ali por acaso! Uma maçada, como se dizia no século XIX. A última frase foi uma perguntinha cretina: “Tá animada pra prova?” Respondam-me, por favor: que tipo de pessoa pergunta se você está “animado” pra uma prova? Adjetivos pra concursando, nessas circunstâncias, se resumem a “preparado”, “concentrado” e “tranqüilo”. Ou eu tinha me confundido e estava na porta de uma boate? Uma rave? Não, não estava. Por delicadeza, respondi um “vamos ver” e voltei a minha ensimesmação.

Não demorou para que o candidato a “colegante” provasse que era mesmo um mala-sem-alça. Quando a platéia aumentou, desandou a discursar que, para o cargo a que concorríamos, era preciso apresentar um certificado de curso de não-sei-o-quê no momento da posse. Eu e mais duas pessoas dizíamos que não, e ele insistia de forma azucrinante. Não agüentei e respondi que, bem, se ele achava que era aquilo, ok. É, meus amigos: o “colegante” não tinha lido o edital e não sabia nem pronunciar o nome do cargo a que estava concorrendo. Salvo mau juízo, era uma daquelas figuras que desabam sabe Deus de onde na hora da verdade, entoando o mantra “de repente eu dou uma sorte e passo”.

Sei que estou azedinha hoje, e que a culpa sequer foi exclusiva do candidato a “colegação” (uma “rezadora” na sala de prova contribuiu muito – manja aquelas pessoas que sussurram o que lêem como se rezassem um Pai Nosso?), mas não há nada mais irritante do que se dar conta de que ainda existem pessoas que “brincam” de fazer concurso público. Caramba! Um concurseiro sério, que se vira do avesso pra arcar com os custos dessa corrida, estuda 8 horas por dia, larga emprego ou, pior, trabalha de dia e estuda de madrugada, se sente no mínimo desconfortável quando vê alguém profanando o objeto de sua concentração com tanta desídia. Não que eu nunca tenha feito provas por fazer, pra ver qual é... mas pelo menos tinha a decência de abordar as pessoas de forma a aprender com elas, mostrando minhas impressões com alguma humildade! Agir de outra forma seria ofendê-las.

Peço mil desculpas pelo desabafo, mas tem dia que cansa. Ah, e pelo amor de Deus, não tenham receio de me abordar numa fila de prova: eu sempre guardo um sorriso no bolso pr'aqueles que estão verdadeiramente caminhando na mesma direção que eu!

domingo, 25 de maio de 2008

Os Sete Pecados Capitais do Concurseiro


Estar na batalha dos concursos é uma gangorra emocional. São altos e baixos que nos fazem passar por toda a escala de sentimentos. Como não poderia deixar de ser, essa variação constante nos leva a cometer alguns pecados que podem prejudicar, e muito, nossa trajetória rumo ao sucesso. Vejamos quais são essas faltas, e como podemos driblá-las sem maiores arranhões.

Inveja – quando vemos nossos amigos de infância e de faculdade levando uma vida bacana, trabalhando na iniciativa privada, comprando carro, financiando apartamento, parece que a escolha pelos concursos foi uma inconseqüência. Seres imperfeitos e falíveis que somos, vem o sentimento destrutivo de que poderíamos estar lá no lugar deles, ganhando um salariozinho mediano, viajando uma vez por ano, comendo em restaurantes legais, saindo à noite. Antes de entrar em desespero e começar a se perguntar "Por que cargas d'água tomei a decisão estúpida de sair do mercado??!!", lembre-se de que a prosperidade no setor privado é relativa e falível. O mesmo amigo que hoje você vê na crista da onda corre o risco de estar em péssimos lençóis segunda-feira de manhã, enquanto os seus esforços para passar no concurso te levarão à mais confortável das vidas profissionais. É melhor esperar mais um pouco pelo carro, a casa e os passeios, e tê-los "até que a morte os separe", ou sair correndo atrás dessas benesses, correndo o risco de perdê-las num momento de revés? Fico com a primeira opção.

Ira – reprovação em concurso é dose pra leão – digo isso de cadeira. Há algo pior do que estudar a beça, colocar-se inteiro dentro de um propósito e levar uma "banda" do destino? Culpamos quem fez a prova ("aqueles malditos venderam os gabaritos!" ou "não acataram os recursos porque são canalhas!"), a família ("também, ninguém me dá força...") e os concurseiros de pára-quedas que caem no dia da prova e, por dominarem melhor a linguagem da organizadora, se dão bem num concurso que não era o foco deles ("isso não é justo com quem se preparou!"). Agora, pára e pensa: de que adianta esmurrar as paredes? O concurso está feito, homologado e já tem até gente sendo chamada... fato consumado! Em vez de esquentar a cabeça com um problema que nem é mais seu, concentre-se no próximo certame. Depois de muito sofrer e remoer, agora adoto a política do "prova feita, prova esquecida": não mexo em mais nada e só passo no site pra ver o resultado final – sem esquecer dos recursos, claro!

Preguiça – tem dia que a gente acorda de manhã e a última coisa que quer é sentar à frente de um livro ou de uma apostila. Tanta coisa mais interessante pra fazer... caminha quente, aquele romance maravilhoso na mesinha de cabeceira, um filme bom pra assistir... ah, eu sofro muito com minha preguiça! Quase sempre tento vencê-la, mas quando não dá mesmo, capitulo e espero a vontade chegar – melhor uma "morfada" eventual do que um estudo improdutivo. Geralmente recupero o pique quando penso seriamente nas coisas boas que cada minuto de dedicação pode render. É infalível.

Soberba – pior do que um concursando pessimista, daqueles que acham todos os concursos concorridíssimos e difíceis de passar, é o "concursando-estrela" - o famoso sabe-tudo. O tipo é bem corriqueiro em sites de relacionamentos e similares: sempre sabe toda a matéria, ridiculariza quem se dispõe a discutir ou fazer perguntas em relação ao edital e passa aos espíritos menos preparados a impressão de que uma vaga do edital já está previamente ocupada por ele. Tornar-se um ser desses é horrível, deprimente. Dificilmente os nomes destas criaturas figuram na lista de aprovados, e é a própria insegurança, além de uma boa dose de deformação de caráter, que os levam a desestimular os concursandos, ou melhor, "inimigos", na sua visão estreita. Ao fim e ao cabo, como pode ser inteligente alguém que comete a burrice de hostilizar e humilhar pessoas com quem, num futuro próximo, pode estar lado a lado, trabalhando? Não caiam na lábia desses pseudo-concurseiros!

Avareza – é fato sabido por todos nós que estudar e fazer concursos públicos custa dinheiro. Não dá nem pra começar sem ter um bom compêndio de leis; a elas, vão se juntando inúmeras apostilas, livros e arquivos de computador. A vida anda cara, os orçamentos estão cada vez mais apertados, entretanto preparar-se na base do 0800 é praticamente impossível. Se você tiver condições mínimas de bancar essa fase, não regateie com valores de passagem, inscrições e outros custos. Prestar provas racionalmente, levando vários fatores em consideração antes de se despencar da beira-mar pra Brasília, por exemplo, faz todo sentido, mas daí a economizar e perder chances vai uma grande distância. No último concurso da CGU, havia uma lista com mais de 1.000 inscrições de hipossuficientes indeferidas por falta de comprovação. É muito!

Gula – todo mundo que caminha na nossa estrada, por mais low profile que seja, está doido pra passar logo num concurso. Quem não quer realizar um sonho que, na esteira, tornará possível a realização de muitos outros? Só que estamos falando de um projeto de médio a longo prazo, com uma série de variáveis que podem adiantar ou atrasar o resultado positivo. Fazer mil concursos ao mesmo tempo vai te levar a estudar insuficientemente para cada um deles, e poderá atrasar seus planos. Veja o lançamento de uma série de editais simultaneamente como uma boa chance de escolher o seu concurso no varejo, em vez de mergulhar de cabeça no atacado. Por outro lado, sou radicalmente contra fazer provas só pra esse ou aquele tipo de cargo. Concurso é oportunidade, e não devemos desperdiçar as que nos parecem interessantes. Focar exclusivamente em concursos com salários astronômicos, pensando em uma conta bancária bem gorda, pode não ser muito produtivo. Planeje sua vida no serviço público de forma racional; depois da primeira nomeação, a tranqüilidade conquistada pode ser a chave das próximas portas...

Luxúria – buscar prazer nas atividades diárias é necessário, mas tornar essa busca uma obsessão pode ter conseqüências desastrosas para um concurseiro. Uma grande parte das pessoas que tentam concursos largaram suas carreiras por motivos bem parecidos: instabilidade, salário baixo, falta de perspectiva. No meio do caminho, por motivos diversos, podemos fraquejar e cair na tentação fácil de retornar à atividade que, em algum momento, nos fez mal a ponto de resolvermos relegá-la ao passado. Conflitos do gênero podem surgir até dentro do universo concurseiro. Essa semana, saiu um concurso que seria "minha cara": cargo de Produtor Cultural da Fundação de Arte de Niterói, exigindo como pré-requisito Graduação Plena em Produção Cultural – não por acaso, eu me formei no único curso do gênero, oferecido pela Universidade Federal Fluminense. Voltar a trabalhar com arte seria muito prazeroso pra mim, mas quando vi o salário oferecido... consegui me apaixonar perdidamente por Direito Constitucional!

P.S.: compus esse texto em BrOffice, o novo programa queridinho das provas de Informática. Aprendam a mexer nele, porque, ao que parece, a tendência é forte.

domingo, 11 de maio de 2008

Estudar até passar?!


Meus caros, devo assumir: tempos atrás, quando ouvia o dito "Pra concurso não se estuda pra passar, e sim até passar", ficava enlouquecida de raiva. Como um projeto de estudo não pode ser para curto prazo, para concluir logo uma decisão tomada?, pensava minha cabeça ansiosa e descompensada. Pra mim, useira e vezeira de quereres e poderes na vida estudantil, passar em concurso era algo que se resolvia de forma mais simples: um cargo, um órgão, uma vontade, e a conseqüente aprovação. Não demorou muito para que eu percebesse a bobagem que pensava – bastaram as primeiras experiências de ausência do nome na lista de aprovados.

Durante um bom tempo, saber essa nova realidade foi, confesso, muito angustiante. Pela primeira vez na vida, teria um projeto de alguns anos – e não seriam alguns anos de alegria, diversão e algum estudo. O período seria bem bruto, com horas e mais horas de leitura, exercícios e memorização, grana curtíssima, dependência tardia dos pais, olhares tortos de parentes e toda a sorte de privações que até então desconhecia. Como agüentar essa barra?

Raciocinando, claro.

Numa rápida retrospectiva, tive a assombrosa percepção de que tudo que viera fácil pra mim, fora embora mais fácil ainda, nada deixando de legado para o lado prático da vida. Ok: sou uma moça razoavelmente inteligente; os empregos, o vestibular, o mestrado e a vaga no doutorado foram bem merecidos, embora pouco suados. A questão é que, dada a facilidade, nem todo o interesse que tinha por essas coisas foi suficiente para fazê-las render bons frutos. Simplesmente passaram por mim, e eu por elas. Com o empenho nos concursos, o buraco é bem mais embaixo. Depois de um ano e alguns meses estudando, já me pego pensando se já é minha hora de passar, ou se não é melhor pra mim penar mais um pouco antes da tão sonhada aprovação. Por mais insano que possa parecer, já penso que quanto mais tempo a vitória demorar pra chegar, mais saborosa será e mais valor lhe darei. Será minha primeira grande conquista avant la lettre.

Sinto que o meu momento está chegando, e é reconfortante ver a sua aproximação. Até a ansiedade vem arrefecendo. Toda a acumulação de experiência e conhecimentos, como diz nosso amigo concurseiro solitário, tem como fim o sucesso. Que paz dá essa sensação de que "estudar até passar" é possível, não mata e sequer faz mal!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Dica rápida

Essa veio fresquinha do Planalto Central na semana passada: se você tem interesse em prestar concursos pra Brasília, procure informações sobre os concursos para o GDF - Governo do Distrito Federal. Os salários são polpudos e muitas vezes os certames só são divulgados por lá. Eu já estou de olho!

domingo, 20 de abril de 2008

Lost na Montanha Mágica

Quatro dias sem telefone e internet depois, cá estou eu.

Coluna decente, amigos, só em maio: reta final do TJ-RJ, que será no próximo domingo. Já que o meu Fluminense perdeu pro Botafogo hoje, pelo menos não vou ter que me desconcentrar das provas por estar ali na Uerj, do lado do Maracanã, imaginando o que está acontecendo dentro do estádio, na final do carioca.

E vamos que vamos - eu no TJ, o tricolor na Libertadores - que a vitória é certa!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Não me venham com essa

Dia desses, num dos muitos sites em que gente inteligente publica colunas, deparei com um artigo sobre concursos. Grosso modo, o autor dizia que crianças não sonham em ser analistas da CGU ou algo que o valha, e que essa corrida para o serviço público é coisa de quem não anda muito a fim de enfrentar os sortilégios e as maquinações do mercado. Fazia, evidentemente, uma concessão às ditas "carreiras de Estado", como é o caso dos juízes e diplomatas. O resto é resto.

Um minuto. Vamos com calma. Muita calma.

Crianças sonham com as mais variadas carreiras, e são poucas as que chegam à vida adulta persistindo no seu sonho. Se me perguntarem de quantas lembro, só me ocorrerá uma única pessoa, hoje dentista e muito realizada. Não creio que com vocês seja muito diferente. Como dizia o título de uma música de Chico – belíssima, por sinal – sonhos sonhos são. Se assim caminhasse a humanidade, teríamos um mundo povoado unicamente por médicos, investigadores do FBI, professores, advogados e artistas dos mais diversos ramos, posto que são essas as míticas profissões que povoam o imaginário coletivo da petizada. Quem cumpriria as funções menos interessantes, só Deus Pai poderia responder. Minha mãe sempre fala, rindo muito, de um primo nosso que dizia querer ser palhaço ou lixeiro quando crescesse. Hoje, homem feito e pai de família, é analista de sistemas, servidor de um tribunal de contas estadual, recém-formado em Direito e bem feliz com suas escolhas. Com todo o respeito que tenho aos garis e aos palhaços, duvido muito que meu primo se arrependa de não ter persistido nos seus remotos sonhos de infância.

Acontece que a gente cresce, e cresce rapidamente. Nessa mesma velocidade, aprendemos que a vida é feita de escolhas e renúncias, muitas vezes dolorosas, mas necessárias. Além disso, temos bastante espaço para a decepção, o luto e o recomeço. Até os 7 anos, influenciada pelo meu avô microbiologista, desejava ser médica; comecei a me desinteressar pela profissão de modo inconsciente quando um câncer o levou de mim em 6 meses, a despeito de toda a evolução da medicina. Adolescente, quis ser produtora cultural porque era encantada por música, cinema e literatura, e precisei me formar e cair no métier pra descobrir que era um peixe fora d'água no meio de tanta loucura. O serviço público nunca significou pra mim um "prêmio de consolação", mas sim a escolha acertada que sempre esteve ali, por vezes latente, por vezes patente. Dentre tantos palcos para a encenação da vida profissional, não consigo enxergar algum mais adequado.

Toda essa discussão levantada gira em torno do "ideal de vida", que estaria supostamente atrelado a algumas carreiras; prestar concursos de forma difusa, como analista ou técnico de mil tribunais ou ministérios diferentes, seria "jogar no atacado". Ora, convenhamos: isso não faz lá muito sentido. Uma breve pesquisa seria suficiente para mostrar que grande parte dos agentes políticos que servem a carreiras de Estado passou por outros cargos de menor complexidade no serviço público, e que esses lhes deram a vivência e o respaldo necessários para que pudessem perseverar na batalha por seu objetivo maior. Nos dias de hoje, é inimaginável haver um indivíduo que persista na luta por um cargo público sem desenvolver o mínimo de interesse, ou até mesmo paixão, pela "coisa pública".

Vida profissional exclusivamente construída sobre facilidades não existe para quase ninguém. Setores privado e público têm suas próprias idiossincrasias, e cabe a cada um de nós decidirmos o que se enquadra melhor ao nosso perfil pessoal. Para mim, assim como, creio eu, para vocês também, o serviço público sério e bem prestado à população ainda é um ideal suficientemente grandioso a ser perseguido.

domingo, 13 de abril de 2008

Intermezzo

Aviso aos meus bons amigos que ando postando menos por motivo nobre: mudei-me semana passada e no meu novo e remotíssimo endereço banda larga simplesmente não chega. A grande vantagem, diz o meu lado Pollyanna, é que a paz e a falta de internet fácil farão os estudos renderem mais. A conferir.